sexta-feira, 20 de março de 2015

Amantes do ódio

Tolos de convicções absurdas,
de metralhadoras e submetralhadoras,
com vossos mísseis e alvos indefinidos.
Homens de amor ao ódio,
amantes explosivos,
jamais tentais contra mim,
que sou vosso oposto.

Sois pedra.
Sou chuva.
Sois muro.
Sou porta.
Sois sono.
Sou insônia.
Sois espelho.
Sou luz.

E, enquanto vós dormis,
eu caminho.
Enquanto vós sonhais,
percorro trilhas descalço.
E, se me cortais, ó pedras,
sangro para irrigar vossas ideias,
subverter vossa decência,
fazer florescer vossa consciência.

Não, não temos nada em comum,
senão o que escondeis
por detrás de vossas manhas.
Vossa fome saciais com palavras.
Vossa sede, com mentiras.
Minha fome, eu a mato com desespero.
Minha sede, com hesitação
e dança.

Dança. 

terça-feira, 10 de março de 2015

Homenzinho branco triste

Pobre homenzinho branco triste,
que mundo é esse que não tolera mais suas macaquices!
Achacado por mulheres;
assediado por tantos outros homens,
bem posso ouvir seus lamentos:
"Por que ninguém olha pro meu pau?
Olhem pro meu pau.
Ei, olhem pro meu pau!"
- Mas ninguém quer saber de seus órgãos insignificantes.
Ó homenzinho branco tão triste,
que mundo é esse que rejeita o argumento de seus hormônios
e que dessacraliza suas bolas,
e que não cede ao seu desespero!
Grite, homenzinho!
Continue gritando:
"Eu tenho bolas.
E elas são lindas!
Duas bolinhas de carne.
Venham ver todos!"
- Quem sabe, um dia,
você terá todos à sua volta
a olhar para o centro de seu mundo.
Até lá, homenzinho,
continue lambendo seu próprio saco.
Só assim,
preservará a chama de seu culto acesa.
A chama de seu culto,
de seu culto,
de seu largo culto!

segunda-feira, 9 de março de 2015

Pobre borboleta

A cobra,
o sapo,
a aranha
e o rato

iniciaram, de forma mansa,
uma mortal dança.
Saboroso ritual
do mais tenebroso mal.

Bem fundo na escuridão,
a cobra começa o trabalho
com seu traiçoeiro chocalho.
Terrível canção.

O sapo asqueroso
pula, incha, coaxa
no chão pedregoso
(loucos movimentos
de impulsos violentos).

Em seguida, a aranha inicia
sua estranha magia
- tecendo o fio
de seu coração vil.

O rato, a tudo observando,
lentamente vai se aproximando,
percorrendo o labirinto
com seu olhar faminto.

Uma borboleta desgraçada
é trazida como que por encanto.
Fora atraída pelo sinistro canto.

Aprisionada
numa estaca torta
breve estará morta.
Enredada na teia,
será a ceia.

O medo lhe toma;
as asas contrai;
a consciência se esvai.
Entra em coma.

Nada pode fazer,
senão temer
e rezar
para o fim logo chegar
e morrer
sem muito sofrer.

A pior ou a melhor morte
quem determina é a sorte.
E, quando o mal é tal que não se pode evitar,
só nos resta aceitar.

Pobre borboleta!

domingo, 1 de março de 2015

Menos Ar

As paisagens se transformam em pinturas;
as janelas, em quadros.
Não há um só canto sem paredes.
E o meu canto, o meu canto é quase inaudível.

Há menos ar, menos inspiração.
Ainda assim, sinto o vento de uma tempestade.
Pingos d’água.
Ondas de lágrimas.

O sal. O sol. O céu. O seu. O meu. O eu.

Um horizonte de devaneios
emaranhado a tantas certezas.
Costurado por frios fios
de um destino sem clareza.

Não há raios de luz.
Não há salvação.
O desejo é sempre falta.
E a felicidade é uma ideia velha.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Romântica Web

Não quero zelo
nem quero tédio.
Sou de margens largas,
de mergulhos profundos.
Rio que deságua em leitos tórridos.

Às moças virgens: "fodam-se".

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Nova arqueologia

Um dia, 
quero encontrar sinais, 
indícios, 
da existência humana em lugares absolutamente improváveis. 
Imagine descobrir mensagens 
deixadas por funcionários de uma filial da McDonald's 
- marcas de uma reflexão, 
talvez, de uma crítica, 
escritas atrás de um forno, 
debaixo de uma cadeira. 
Em uma fábrica da Apple, 
registros de poesia, 
de música, 
de pintura. 
Quem sabe, até mesmo em uma universidade, 
poderíamos encontrar algum traço de inteligência. 
Pequenas manifestações de resistência. 
Tentativas sussurrantes de dizer: 
"eu estive aqui". 
E daí nasceria uma arqueologia completamente diferente. 

sexta-feira, 3 de maio de 2013

O Crime


Queria cometer um crime
e tive uma ideia.
Uma ideia transgressora,
mesmo que determinada pela minha vontade.
Uma ideia criminosa,
apesar de submetida a um sistema carcerário gramatical.
Uma ideia sem restrições,
ainda que aprisionada numa folha pautada, com grades de papel.

Queria cometer um crime
e tive uma ideia.
A ideia era o crime.