sábado, 6 de agosto de 2011

Meu Muro

Todos os dias, ponho um tijolo no muro.
O muro cresce e cresce sem parar,
sem nunca acabar.
Esse muro não tem fim.
Não tem.
Já não me lembro quando comecei a erguê-lo.
E, o pior, nem sei mais do que ele me separa.

Não posso continuar.
Estou exausto!
Além do que, ouço vozes daquele lado.
São os outros.
Queria vê-los, falar com eles.
Não consigo.
Estou preso atrás do meu muro.

Paraíso dos Tolos

A serpente não é o mal;
antes, um começo, nunca, o final.
Ela representa a simples curiosidade,
sem ter nada de bom nem de maldade.
Todos os dias, provar o fruto proibido
é estar sempre em busca do desconhecido.
Morder, mastigar, engolir, saborear
em grandes porções até me fartar.
Este é o meu maior prazer
e já tem nome: viver.
Por fim, digo com largo sorriso:
"graças a deus, escapei do paraíso!"

Insônia

Acordei não para tomar café
nem para trabalhar ou ir à igreja,
muito menos fiquei em casa ligado na TV.
Hoje, acordei de acordar,
porque estava cansado de dormir.

TV, padre, futebol, cerveja,
tudo isso me dá muito sono,
e eu não quero ir para a cama cedo,
quero curtir minha insônia.
De olhos abertos, a pensar:
"quem mais está acordado?
Onde estão os que, como eu, lutam contra o sono?
O que, de olhos também abertos, estão eles a pensar?
Que fazem acordados nessa hora?"

Acordar é o pesadelo de muitos.
Adormecer é o meu.
Mas o mundo embala a todos enquanto gira, se é que gira,
e o sono, ainda que muito tarde, deitará seu cobertor igualmente sobre mim.

Folha Viva

O papel e a caneta.
Inocente folha branca,
fatídica mancha preta.

Certa página arrancada
de um livro aberto,
a história arriscada,
seu destino é incerto.

Esboço uma pintura
copiando o que vejo,
desenho uma gravura,
expresso meu desejo.

Mero decalque
é tudo que consigo.
A vergonha é tal que...
brigo comigo.

A imagem em mim
é sempre assim:

cabeça de religioso,
tronco de nazista,
mãos de criminoso,
coração capitalista,

jeito de menino,
voz envolvente,
sorriso cretino,
caráter deprimente.

Para escapar do fracasso,
quero rasgar-me,
mas não o faço
nem consigo apagar-me.

Indelével escrito
marcado com tinta,
meu espaço restrito,
vida que se pinta.

Como fui cega!
Mil vezes repito.
Meu espírito se entrega
toda vez que as imito.

Viro o inverso,
penso diferente,
um novo universo
nasce em minha mente.

Meu corpo em prosa
transcende o material.
A palavra é poderosa,
determina o final.

Identidade

Quem sou eu quando não me reconheço,
o de cá, que grita, ou o de lá, que chora?
Quem sou eu quando vou embora,
o que arrasta ou o que é arrastado?

Quantos de mim já conheci
e quantos mais irei conhecer?
Quantos de mim eu matei
e quantos mais ainda hei de matar?
Sentenciados e aprisionados,
emparedados e sufocados.

Quem sou eu, afinal,
os que mataram ou os que morreram?